O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues acompanha uma mudança que ganhou força nos Estados Unidos: desde setembro de 2024, regras da agência reguladora de alimentos e medicamentos do país passaram a exigir que todos os serviços de mamografia informem às pacientes, em linguagem padronizada, se suas mamas são densas. Antes disso, diversos estados norte-americanos já tinham leis semelhantes. A medida reflete uma tendência internacional de transformar a densidade mamária em informação que chega diretamente à mulher.
Por que a densidade passou a ser comunicada
A densidade indica a proporção de tecido glandular em relação à gordura na mama e só pode ser avaliada por exame de imagem. Mamas densas têm dois efeitos importantes: dificultam a visualização de tumores na mamografia, porque o tecido glandular e as lesões aparecem igualmente claros, e estão associadas a um risco um pouco maior de câncer de mama.
Durante muito tempo, a informação constava apenas no laudo técnico, dirigido ao médico solicitante, e muitas mulheres nunca ouviam falar do assunto. Segundo Vinicius Rodrigues, a comunicação direta permite que a paciente participe das decisões sobre seu acompanhamento e entenda por que, em alguns casos, um exame complementar pode ser sugerido.
O que muda na prática
Nos serviços que adotam a comunicação, a mulher recebe, junto com o resultado, uma explicação sobre a densidade de suas mamas e a orientação de conversar com o médico sobre a necessidade de outros exames. A classificação segue o sistema BI-RADS, que divide a densidade em quatro categorias, da quase totalmente gordurosa à extremamente densa.
Estimativas norte-americanas indicam que cerca de metade das mulheres em idade de rastreamento tem mamas classificadas como densas, o que mostra o alcance da medida. A informação é especialmente relevante para mulheres que também têm outros fatores de risco, como histórico familiar.
As dúvidas que a informação gera
A comunicação também traz desafios. Saber que tem mamas densas pode gerar ansiedade em mulheres que não entendem o significado do termo. Muitas interpretam a informação como sinal de doença, quando se trata de uma característica comum e, em geral, normal do tecido.
Outro ponto em discussão é o que fazer depois. A ultrassonografia e a ressonância magnética podem aumentar a detecção em mamas densas, mas também elevam o número de achados benignos que exigem investigação. Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a indicação de exames complementares deve considerar o risco individual, e não apenas a densidade isolada.
O cenário no Brasil
No Brasil, a densidade costuma constar nos laudos de mamografia que seguem o sistema BI-RADS, mas não há uma regra nacional que padronize a comunicação direta e explicativa à paciente. Na prática, a forma como a informação chega à mulher depende do serviço, do modelo de laudo adotado e do médico que a acompanha.
A discussão tende a crescer à medida que novos métodos complementares, como a tomossíntese, a mamografia com contraste e a ressonância abreviada, se tornam mais disponíveis. A comunicação da densidade pode servir de porta de entrada para conversas sobre rastreamento individualizado.
Informação acompanhada de orientação
A tendência aponta para um modelo em que a mulher conhece as características das próprias mamas e entende como elas influenciam o exame. Para que a medida traga benefício, a informação precisa vir acompanhada de explicação clara e de acesso a profissionais capazes de esclarecer dúvidas.
Materiais educativos, conversas durante a consulta e laudos em linguagem acessível ajudam a evitar alarme desnecessário. Conforme pondera Vinicius Rodrigues, informar a densidade é um passo importante, mas o valor real da medida está em ajudar cada mulher a construir, junto com o médico, o plano de rastreamento mais adequado ao seu perfil.