Estudo divulgado nesta semana revela avanço do uso não autorizado de ferramentas de IA e acende alerta para empresas e trabalhadores brasileiros.
A inteligência artificial está entrando tão rapidamente na rotina profissional que parte dos trabalhadores já utiliza ferramentas não autorizadas pelas próprias empresas. Um estudo da KnowBe4 divulgado em 26 de agosto mostrou que 40% dos profissionais brasileiros recorrem às suas próprias aplicações de IA no ambiente de trabalho, enquanto 13,5% dizem priorizar essas ferramentas pessoais em vez das soluções aprovadas pela organização. O fenômeno é chamado de Shadow AI, ou IA invisível, e começa a preocupar especialistas porque pode levar documentos, informações internas e dados pessoais para serviços que a empresa não controla. Segundo o levantamento, 49,5% dos entrevistados reconhecem que compartilhar informações confidenciais em ferramentas de IA não verificadas representa uma ameaça relevante à segurança. (inforchannel.com.br) A questão, portanto, deixou de ser apenas tecnológica: ela envolve privacidade, segurança e responsabilidade no uso cotidiano da IA.
Por que tantos trabalhadores estão usando ferramentas de IA sem autorização?
O avanço do Shadow AI tem uma explicação bastante prática: os trabalhadores encontraram ferramentas capazes de acelerar tarefas que antes consumiam muito tempo. Um funcionário pode utilizar um chatbot para resumir um relatório, revisar um texto, criar uma apresentação, organizar uma planilha ou sugerir códigos, mesmo quando a empresa ainda não oferece uma solução oficialmente aprovada. O estudo da KnowBe4 indica que 62% dos profissionais brasileiros relacionam erros de segurança à falta de tempo, sobrecarga de trabalho e distrações, enquanto 65% dos líderes de segurança apontam erros não intencionais durante atividades rotineiras como um dos principais fatores de risco. (inforchannel.com.br) Isso ajuda a entender por que simplesmente proibir a tecnologia pode não funcionar: quando uma ferramenta resolve um problema imediato, parte dos usuários tende a procurar um caminho alternativo.
O problema começa quando a conveniência vence a segurança. Ao copiar um contrato, cadastro de cliente, documento financeiro ou informação estratégica para uma plataforma externa, o trabalhador pode não saber como aquele serviço trata os dados inseridos. Também pode desconhecer se as informações são armazenadas, utilizadas para aprimorar sistemas ou compartilhadas dentro de determinadas condições. No Brasil, a LGPD protege dados pessoais e estabelece princípios para seu tratamento, inclusive em ambientes digitais. A legislação considera dado pessoal qualquer informação relacionada a uma pessoa identificada ou identificável, como nome, CPF, e-mail e telefone, enquanto dados de saúde, genéticos e biométricos recebem proteção adicional. (gov.br) Por isso, usar IA para acelerar uma tarefa não autoriza automaticamente o compartilhamento de qualquer informação.
O que pode acontecer quando dados da empresa vão parar em uma IA?
O risco do Shadow AI não está somente em um eventual vazamento clássico. Existe também a possibilidade de informações internas serem inseridas em ferramentas externas sem que a organização consiga controlar depois onde aquele conteúdo foi processado ou armazenado. A pesquisa da KnowBe4 mostra que 49,5% dos entrevistados consideram o compartilhamento de informações confidenciais em aplicações de IA não verificadas uma ameaça significativa. Além disso, 51% dos líderes de segurança ouvidos afirmaram que, nos 12 meses anteriores, o uso não autorizado de softwares e aplicações de IA já havia comprometido diretamente a postura de segurança de suas organizações. (inforchannel.com.br) O perigo pode envolver segredos comerciais, dados de clientes, informações financeiras, credenciais, código-fonte e documentos estratégicos.
A responsabilidade também não deve ser colocada exclusivamente sobre o trabalhador. Empresas precisam criar políticas claras, oferecer alternativas aprovadas e ensinar como utilizar IA com segurança, porque a ausência de orientação pode estimular justamente o uso informal. A Agência Nacional de Proteção de Dados destaca que sistemas de inteligência artificial podem envolver tratamento de dados pessoais e apresenta preocupação com finalidade, necessidade, transparência e riscos aos direitos dos titulares. (gov.br) Para o profissional, isso significa que “coloquei na IA só para ela resumir” não é uma justificativa suficiente quando o material contém informações protegidas. A regra mais segura é simples: se o dado não deveria ser enviado para uma pessoa ou serviço externo, também não deve ser colocado em uma ferramenta de IA sem autorização.
Como usar inteligência artificial no trabalho sem criar um risco de segurança?
A primeira medida é descobrir quais ferramentas a empresa realmente autoriza e quais tipos de informação podem ser processados nelas. Caso exista uma plataforma corporativa, o trabalhador deve preferi-la para atividades envolvendo documentos internos, clientes ou processos estratégicos. Quando a tarefa permitir, também é possível trabalhar com informações genéricas, anonimizadas ou fictícias, sem inserir dados capazes de identificar pessoas ou revelar informações confidenciais. O Governo Digital recomenda justamente que soluções de IA que tratem dados pessoais observem princípios da LGPD, incluindo finalidade e necessidade, além de controles de acesso e governança. (gov.br)
Outra prática importante é não confundir produtividade com liberdade para compartilhar qualquer conteúdo. Um funcionário pode pedir à IA que ajude a melhorar um texto sem fornecer nomes, números de documentos ou detalhes estratégicos, por exemplo. Também vale revisar a resposta gerada antes de utilizá-la, porque sistemas de IA podem produzir informações incorretas ou reproduzir problemas presentes nos dados usados para gerar determinada resposta. Para as empresas, a estratégia mais eficiente tende a combinar treinamento, ferramentas autorizadas, controle de acesso e regras claras, em vez de simplesmente bloquear toda inteligência artificial. O estudo da KnowBe4 sugere justamente esse desafio: embora 95% dos líderes brasileiros pesquisados demonstrem confiança na capacidade de enfrentar ameaças impulsionadas por IA nos próximos 12 meses, apenas 33% das organizações atingiram o nível considerado “padrão de ouro” em maturidade de segurança. (inforchannel.com.br)
O avanço do Shadow AI mostra que a inteligência artificial já se tornou uma ferramenta de trabalho cotidiana, mesmo quando as empresas ainda estão tentando definir como ela deve ser utilizada. Os 40% de profissionais brasileiros que recorrem a aplicações próprias revelados pelo estudo indicam que simplesmente proibir a tecnologia provavelmente não resolve a questão. (inforchannel.com.br) Para o trabalhador, a regra mais importante é evitar colocar dados pessoais, financeiros, estratégicos ou confidenciais em ferramentas não autorizadas. Para as empresas, o desafio é oferecer alternativas seguras e treinamento suficiente para que produtividade e proteção caminhem juntas. A IA pode acelerar o trabalho, mas a conveniência não deve custar a privacidade nem a segurança das informações.