Uma pesquisa apresentada por pesquisadores do Observatório Nacional selecionou oito exoplanetas com características que podem favorecer a existência de água em estado líquido. A condição é considerada um dos fatores importantes na busca por ambientes potencialmente habitáveis fora da Terra, mas não significa que os corpos celestes abriguem vida confirmada.
O levantamento foi realizado pelo pesquisador Fábio Calabrio Evangelista da Silva, sob orientação do professor Marcelo Borges Fernandes. A análise considerou dados de mais de 6 mil exoplanetas catalogados pela Nasa e avaliou aspectos como raio, densidade, distância em relação à estrela e posição na chamada zona habitável.
O trabalho foi apresentado durante a sexta edição do AstrobiON, evento de astrobiologia realizado pelo Observatório Nacional entre 14 e 17 de setembro de 2026, no Rio de Janeiro. A divulgação da pesquisa ocorreu em 19 de setembro, em reportagem da Agência Brasil.
Como os oito exoplanetas foram selecionados
Exoplanetas são corpos celestes que orbitam estrelas diferentes do Sol. Como estão muito distantes, os pesquisadores dependem de observações e dados indiretos para estimar suas propriedades. No estudo brasileiro, os candidatos foram comparados a partir de parâmetros físicos e orbitais associados à possibilidade de manutenção de água líquida.
Entre os critérios considerados estão o tamanho do planeta, sua densidade e a distância até a estrela que orbita. A posição em relação à zona habitável também foi importante. Essa faixa não é igual para todas as estrelas: ela depende da quantidade de energia emitida e das condições do sistema planetário analisado.
A seleção, portanto, não representa a descoberta de oito novos planetas nem a identificação de vida extraterrestre. O objetivo foi apontar quais mundos já catalogados apresentam um conjunto de características que justifica investigações mais detalhadas.
GJ 1002b é o mais parecido com a Terra
Entre os oito exoplanetas selecionados, o GJ 1002b recebeu destaque por apresentar o maior índice de similaridade com a Terra, estimado em 98% no estudo. O planeta está a aproximadamente 16 anos-luz do nosso sistema e orbita uma estrela anã-vermelha.
De acordo com os dados disponíveis no NASA Exoplanet Archive, o GJ 1002b é um planeta conhecido e completa uma volta ao redor de sua estrela em aproximadamente 10,35 dias. A curta duração do período orbital está relacionada à proximidade do planeta em relação à estrela que o abriga.
A semelhança estimada não significa que o GJ 1002b seja uma cópia da Terra ou que tenha oceanos, atmosfera adequada ou organismos vivos. O índice é uma forma de comparar características observáveis ou estimadas, servindo como ferramenta para priorizar alvos de pesquisa.
O que significa estar na zona habitável
A zona habitável é uma região ao redor de uma estrela na qual as temperaturas podem permitir a existência de água líquida na superfície de um planeta. Por causa dessa associação, ela também é conhecida informalmente como “zona dos Cachinhos Dourados”: nem quente demais, nem fria demais para esse ingrediente essencial.
Estar nessa faixa, porém, é apenas uma condição inicial. A presença de água líquida depende de outros fatores, como a composição da atmosfera, a pressão na superfície e a capacidade do planeta de manter condições estáveis ao longo do tempo. Um mundo localizado na zona habitável pode, ainda assim, ser inadequado para a vida.
Por isso, os pesquisadores precisam combinar diferentes tipos de informação. O raio e a densidade ajudam a estimar a natureza do planeta, enquanto a órbita e as características da estrela fornecem pistas sobre a quantidade de energia recebida. Esses dados não substituem observações diretas da atmosfera, mas ajudam a definir quais objetos merecem atenção prioritária.
Pesquisa não confirma vida fora do Sistema Solar
A principal conclusão do estudo é a identificação de candidatos promissores, e não a comprovação de habitabilidade ou de vida. Para avançar nessa avaliação, seriam necessárias observações adicionais capazes de investigar a atmosfera dos planetas e procurar possíveis bioassinaturas, sinais que poderiam estar relacionados à atividade de organismos.
Mesmo quando uma molécula de interesse é detectada, sua interpretação exige cautela. Processos não biológicos também podem produzir determinados compostos, e os cientistas precisam analisar o conjunto de evidências antes de associá-los à presença de vida.
O trabalho apresentado no AstrobiON contribui ao organizar informações de milhares de exoplanetas e indicar alvos para futuras pesquisas. Segundo informações do Observatório Nacional, o evento reuniu atividades voltadas à astrobiologia, área que investiga a origem, a evolução e a possibilidade de vida no Universo.
Assim, os oito exoplanetas funcionam como pontos de partida para a astronomia observacional. O GJ 1002b se destaca pela combinação de características e pela proximidade relativa, mas qualquer conclusão sobre sua atmosfera ou eventual presença de vida dependerá de novas medições e de análises científicas mais completas.